Salvei fotos de caixão e anotei como queria meu funeral.
Seria em uma sala clara, com várias rosas brancas espalhadas pelo chão.
Eu estaria vestida de branco, com um vestido longo, e haveria rosas brancas também dentro do caixão.
Meu sapo de pelúcia, o Zaque, estaria comigo no caixão, usando um vestido igual ao meu.
Teria um grupo musical com violino, piano e flauta, tocando músicas tristes. Todos os convidados deveriam estar chorando ou com expressão triste.
Se alguém risse ou fizesse piadinhas, seria expulso do meu velório.
Li bastante sobre os benefícios da cremação, mas preferia ser enterrada.
O motivo era a preservação do meu corpo.
Eu me sentiria destruída sendo queimada.
Até hoje, prefiro a ideia dos vermes me comendo do que ser queimada.
Na época, eu também não queria que doassem meus órgãos.
A ideia de abrirem meu corpo me fez sentir violada.
Só de imaginar isso, me fazia mal.
Hoje eu mudei de ideia, gosto de pensar que meus órgãos podem dar continuidade à vida de outras pessoas.
Lembro que contei para minha avó como eu gostaria de ser enterrada.
Descrevi todos os detalhes para ter certeza de que ela cuidaria do meu enterro como eu queria.
Mas não contei sobre a parte do suicídio.
Eu nem tinha parado para pensar em como minha família se sentiria se eu morresse.
Eu pensava que como a morte é natural, eles saberiam lidar com isso.
Mas minha avó ficou mal com isso.
Me senti culpada por ter deixado ela triste. Percebi que se eu morresse, minha família sofreria.
Comecei a reconsiderar a ideia de não me matar.
Pesquisei também o que poderia acontecer caso existisse algo depois da morte.
Pesquisei diferentes visões religiosas sobre o pós-morte.
Mas a que me pegou foi a visão do espiritismo.
No espiritismo, espíritos que se suicidam não encontram paz, ficam vagando, sentindo dor.
E tudo o que eu queria era deixar de existir.
Se isso fosse verdade, eu não teria descanso.
Não queria sofrer eternamente.
Cheguei até a pensar em pagar alguém para me matar, mas o medo de violarem meu corpo me impediu.
Queria meu corpo intacto.
Fui desistindo aos poucos da ideia de suicídio.
Na verdade, eu ainda queria morrer jovem e bonita.
Mas completei 27 anos, já passei da idade que considerava ideal para morrer.
Morrer agora seria morrer “velha”, e não mais bonita.
Além disso, eu encontrei alguém que amo.
E quero envelhecer ao lado dele.
Mudei meus planos.
Hoje, quero ser enterrada ao lado do corpo do meu homem.
Quero que nossos caixões fiquem lado a lado.
Quero uma decoração no nosso túmulo como aquelas que vi de casais nos cemitérios alguns eram tão bonitos, com esculturas de mãos dadas.
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